28.12.04
Crónica Amarga de Fim de Ano
Após curtas férias, regresso ao meu ofício de escriba, para relatar dois ou três factos que me tocaram ultimamente.
Primeiro, a tragédia no Sudeste asiático, com o seu cortejo de desgraça e desolação, a que as TV, em Portugal e, provavelmente no mundo, não dão descanso. Tanta parasitagem oportunista da desgraça alheia causa-nos náuseas. Já basta a tragédia em si, para nos atormentar a consciência, não precisamos de doses pantagruélicas de reportagens, cheias de imagens repetidas vezes sem conta, até nos dessensibilizarem, até que criemos imunidade ao sentimento que deveriam inspirar. Eis o efeito de excesso de informação.
Segundo, as declarações políticas contraditórias do Governo demissionário, e a obsessão de PSL pelo papel de vítima da difusa conspiração contra si erguida. Talvez que o horóscopo da vidente Maya que o seu mui dilecto apoiante, Luís Delgado, citou, no seu habitual panegírico, lhe transmita algum alento para as vagas alterosas da Demagogia que se avizinham. Nisso, o seu directo concorrente socialista, Sócrates, não lhe fica atrás, para mal de nós todos, que, fatalmente, seremos também atingidos pela grossa artilharia de dislates e de mútuas recriminações que hão-de abundantemente produzir, na proporção directa da sua falta de razão motivadora do eleitorado.
Terceiro, ainda ontem, nas Caldas da Rainha, ao ser atendido numa loja, por uma jovem brasileira e perante a minha quase desnecessária pergunta sobre a sua terra de origem, logo ela me respondeu que era brasileira de Goiás, graças a Deus. Este pronto amor declarado à sua Pátria, apesar de esta lhe ter sido ingrata, obrigando-a a procurar sustento mais digno noutras paragens, impressionou-me, porque contrasta com a nossa quase indiferença, quando não hostilidade, à nossa madre terra.
Já no Euro 2004, foi preciso um brasileiro, Filipe Scolari, incitar os portugueses a exaltarem os símbolos nacionais, como o Hino e a Bandeira, que nós quase só a medo ou pedindo desculpa, éramos capazes de levantar, para que o gesto se espalhasse e ganhasse aceitação generalizada.
Foi a primeira vez, em muitos anos, que se viram tantas bandeiras nacionais desfraldadas ao vento, nas casas, sobretudo nas modestas, de tantos portugueses, por esse país fora. Poderão dizer-me que foi exibição de um patriotismo barato, mas, ainda assim, o reputo de importante, porque quebrou um complexo longamente consentido, dolorosamente suportado, por todos os que lhe sofriam a sua sem-razão.
Sempre que vejo estes novos imigrantes, brasileiros, africanos, ucranianos, russos e demais povos do leste da Europa, a buscar sustento entre nós, país de emigrantes durante tantos anos, não deixo de sentir alguma perplexidade. Afinal, alguns destes imigrantes vêm de países bem maiores e mais ricos que Portugal, mas que a desorganização social, a insensatez política e a ganância de uns tantos transformaram em terras de desesperança, ao ponto de os seus concidadãos as abandonarem, por outras aparentemente menos providas de recursos.
Que grande contraste e que grande lição podemos tirar destes exemplos. Basta que atentemos nos casos de êxito económico e social de países pequenos e de parcas riquezas materiais, no solo e no sub-solo, sem fontes sequer de energia, como o carvão, o petróleo, o gás natural, sem minérios, como a Dinamarca, a Holanda, a Finlândia, a Suécia, a Noruega, esta última com petróleo e gás natural, na sua plataforma marítima, mas alguns até sem mar, como a Áustria e a Suíça, e, no entanto, todos eles oásis de vida, portos de abrigo de tanta humanidade, que, em desespero, os demanda, virando costas às suas pátrias, por vezes bem mais dotadas desses mesmos recursos.
Com o Brasil, dá-se o caso de este ter sido durante décadas a fio, desde o último quartel do século xix, até aos anos 50 do século xx, uma espécie de terra da promissão, para centenas de milhares de portugueses fugidos da miséria, do frio, climatérico e até sexual, autêntico el dorado das pobres gentes lusas, para agora a situação se inverter, ainda que sem a equivalente grandeza de sonho que acompanhava os nossos compatriotas a terras de Vera Cruz.
Que funesta desorganização social deve grassar hoje por lá, para que tanto seu nacional aqui procure a sua sorte, na nossa, outra vez, pequena casa lusitana.
É esta a sorte dos povos, quando à sua frente se acham pessoas moralmente incapazes ou mesmo activamente corruptas, ávidas de riqueza e de ostentação, sem consideração pela sorte dos seus concidadãos. No fundo, por muito que analisemos a situação, por mais que convoquemos teorias económicas, pretensamente científicas, na base de tudo encontraremos a falta de um sentido comunitário, gregário, assente em princípios morais, antigos e simples, mas que estão na base de todo o progresso duradouro e são.
Sem solidariedade, sem coesão social, sem patriotismo, não há Nação que vingue, mas apenas massas desirmanadas, em busca de um sôfrego fim consumista, que rapidamente as desconsola e as deixa frustradas.
Ficou algo lúgubre esta crónica de fim de ano e, quase diria, de fim de civilização.
Apetece dizer, como Molière citou, em «O Burguês Gentil-Homem» : « Sine doctrina vita est quasi mortis imago/A vida sem instrução/sabedoria é como a imagem da morte», acrescentando : e sem um mínimo de conforto material, também.
AV_Lisboa, 28 de Dezembro de 2004
Primeiro, a tragédia no Sudeste asiático, com o seu cortejo de desgraça e desolação, a que as TV, em Portugal e, provavelmente no mundo, não dão descanso. Tanta parasitagem oportunista da desgraça alheia causa-nos náuseas. Já basta a tragédia em si, para nos atormentar a consciência, não precisamos de doses pantagruélicas de reportagens, cheias de imagens repetidas vezes sem conta, até nos dessensibilizarem, até que criemos imunidade ao sentimento que deveriam inspirar. Eis o efeito de excesso de informação.
Segundo, as declarações políticas contraditórias do Governo demissionário, e a obsessão de PSL pelo papel de vítima da difusa conspiração contra si erguida. Talvez que o horóscopo da vidente Maya que o seu mui dilecto apoiante, Luís Delgado, citou, no seu habitual panegírico, lhe transmita algum alento para as vagas alterosas da Demagogia que se avizinham. Nisso, o seu directo concorrente socialista, Sócrates, não lhe fica atrás, para mal de nós todos, que, fatalmente, seremos também atingidos pela grossa artilharia de dislates e de mútuas recriminações que hão-de abundantemente produzir, na proporção directa da sua falta de razão motivadora do eleitorado.
Terceiro, ainda ontem, nas Caldas da Rainha, ao ser atendido numa loja, por uma jovem brasileira e perante a minha quase desnecessária pergunta sobre a sua terra de origem, logo ela me respondeu que era brasileira de Goiás, graças a Deus. Este pronto amor declarado à sua Pátria, apesar de esta lhe ter sido ingrata, obrigando-a a procurar sustento mais digno noutras paragens, impressionou-me, porque contrasta com a nossa quase indiferença, quando não hostilidade, à nossa madre terra.
Já no Euro 2004, foi preciso um brasileiro, Filipe Scolari, incitar os portugueses a exaltarem os símbolos nacionais, como o Hino e a Bandeira, que nós quase só a medo ou pedindo desculpa, éramos capazes de levantar, para que o gesto se espalhasse e ganhasse aceitação generalizada.
Foi a primeira vez, em muitos anos, que se viram tantas bandeiras nacionais desfraldadas ao vento, nas casas, sobretudo nas modestas, de tantos portugueses, por esse país fora. Poderão dizer-me que foi exibição de um patriotismo barato, mas, ainda assim, o reputo de importante, porque quebrou um complexo longamente consentido, dolorosamente suportado, por todos os que lhe sofriam a sua sem-razão.
Sempre que vejo estes novos imigrantes, brasileiros, africanos, ucranianos, russos e demais povos do leste da Europa, a buscar sustento entre nós, país de emigrantes durante tantos anos, não deixo de sentir alguma perplexidade. Afinal, alguns destes imigrantes vêm de países bem maiores e mais ricos que Portugal, mas que a desorganização social, a insensatez política e a ganância de uns tantos transformaram em terras de desesperança, ao ponto de os seus concidadãos as abandonarem, por outras aparentemente menos providas de recursos.
Que grande contraste e que grande lição podemos tirar destes exemplos. Basta que atentemos nos casos de êxito económico e social de países pequenos e de parcas riquezas materiais, no solo e no sub-solo, sem fontes sequer de energia, como o carvão, o petróleo, o gás natural, sem minérios, como a Dinamarca, a Holanda, a Finlândia, a Suécia, a Noruega, esta última com petróleo e gás natural, na sua plataforma marítima, mas alguns até sem mar, como a Áustria e a Suíça, e, no entanto, todos eles oásis de vida, portos de abrigo de tanta humanidade, que, em desespero, os demanda, virando costas às suas pátrias, por vezes bem mais dotadas desses mesmos recursos.
Com o Brasil, dá-se o caso de este ter sido durante décadas a fio, desde o último quartel do século xix, até aos anos 50 do século xx, uma espécie de terra da promissão, para centenas de milhares de portugueses fugidos da miséria, do frio, climatérico e até sexual, autêntico el dorado das pobres gentes lusas, para agora a situação se inverter, ainda que sem a equivalente grandeza de sonho que acompanhava os nossos compatriotas a terras de Vera Cruz.
Que funesta desorganização social deve grassar hoje por lá, para que tanto seu nacional aqui procure a sua sorte, na nossa, outra vez, pequena casa lusitana.
É esta a sorte dos povos, quando à sua frente se acham pessoas moralmente incapazes ou mesmo activamente corruptas, ávidas de riqueza e de ostentação, sem consideração pela sorte dos seus concidadãos. No fundo, por muito que analisemos a situação, por mais que convoquemos teorias económicas, pretensamente científicas, na base de tudo encontraremos a falta de um sentido comunitário, gregário, assente em princípios morais, antigos e simples, mas que estão na base de todo o progresso duradouro e são.
Sem solidariedade, sem coesão social, sem patriotismo, não há Nação que vingue, mas apenas massas desirmanadas, em busca de um sôfrego fim consumista, que rapidamente as desconsola e as deixa frustradas.
Ficou algo lúgubre esta crónica de fim de ano e, quase diria, de fim de civilização.
Apetece dizer, como Molière citou, em «O Burguês Gentil-Homem» : « Sine doctrina vita est quasi mortis imago/A vida sem instrução/sabedoria é como a imagem da morte», acrescentando : e sem um mínimo de conforto material, também.
AV_Lisboa, 28 de Dezembro de 2004
Comments:
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Prezado António,
ainda estou a rir-me de sua perplexidade diante do 02-01-05 (“parece data de ficção científica”). Gostaria de tecer comentários inspirados na sua “crónica amarga de fim de ano”. Você (permita-me que lhe trate assim) se refere à desesperança que grassa em outras plagas e que leva pessoas a buscar refúgio económico (e cultural) em Portugal. Ora, a desesperança sempre há de existir, mudando apenas de morada; hoje pode estar na Ucrânia, amanhã em outro sítio qualquer. O ponto focal da crónica, no entanto, me parece ser a menção ao facto de a casa lusitana ser pequena. E como é pequena, digo eu, a imigração, caso interesse aos portugueseses aceitá-la, deveria levar em consideração o tamanho do país, a fim de evitar a total descaracterização do querido Portugal. Imagino que não seja impossível estabelecer restrições à entrada de estrangeiros extra-comunitários, incluindo a de brasileiros, angolanos, etc. O problema, suponho, residiria em diminuir o afluxo de europeus comunitários do leste, já que o espírito do tempo, volto a supor, não contempla um Portugal fora da abrangência de Bruxelas. Como sou brasileiro, tenho no vosso país uma referência ancestral. Sei que tudo na vida muda, inclusive as “referências ancestrais”. Mas precisava ser nesse ritmo tão acelerado?
ainda estou a rir-me de sua perplexidade diante do 02-01-05 (“parece data de ficção científica”). Gostaria de tecer comentários inspirados na sua “crónica amarga de fim de ano”. Você (permita-me que lhe trate assim) se refere à desesperança que grassa em outras plagas e que leva pessoas a buscar refúgio económico (e cultural) em Portugal. Ora, a desesperança sempre há de existir, mudando apenas de morada; hoje pode estar na Ucrânia, amanhã em outro sítio qualquer. O ponto focal da crónica, no entanto, me parece ser a menção ao facto de a casa lusitana ser pequena. E como é pequena, digo eu, a imigração, caso interesse aos portugueseses aceitá-la, deveria levar em consideração o tamanho do país, a fim de evitar a total descaracterização do querido Portugal. Imagino que não seja impossível estabelecer restrições à entrada de estrangeiros extra-comunitários, incluindo a de brasileiros, angolanos, etc. O problema, suponho, residiria em diminuir o afluxo de europeus comunitários do leste, já que o espírito do tempo, volto a supor, não contempla um Portugal fora da abrangência de Bruxelas. Como sou brasileiro, tenho no vosso país uma referência ancestral. Sei que tudo na vida muda, inclusive as “referências ancestrais”. Mas precisava ser nesse ritmo tão acelerado?
Aplausos de pé!
Nada a acrescentar.
Concordo plenamente.
MUITOS ABRAÇOS,
Bisbilhoteira.
(www.bisbilhotices.blogger.com.br)
Nada a acrescentar.
Concordo plenamente.
MUITOS ABRAÇOS,
Bisbilhoteira.
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